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CHURRASQUEIRO - MARATONISTA POR PROFISSÃO
User: fabito
Date: 7/13/2015 10:34 pm
Views: 805
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<p>"Se h&aacute; algo que traz paz e alegria ao cora&ccedil;&atilde;o humano e &agrave; fam&iacute;lia &eacute; viver dentro de nossas possibilidades. E se h&aacute; algo que traz tristeza, des&acirc;nimo e desespero &eacute; ter d&iacute;vidas e obriga&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o podemos saldar."</p>
<p>A profiss&atilde;o de churrasqueiro sempre me tocou bem de perto. Foi com ela que meu pai ganhava a vida. (Se voc&ecirc; tamb&eacute;m aprontou quando crian&ccedil;a imagine quantas co&ccedil;as de palito eu levei! A poupan&ccedil;a ardendo nos servia de lembrete para n&atilde;o repetirmos a fa&ccedil;anha...)</p>
<p>A exemplo dos Alco&oacute;licos An&ocirc;nimos, que organizam grupos de ajuda para os que convivem com o dependente, deveria haver assist&ecirc;ncia permanente para a fam&iacute;lia dos ambulantes...</p>
<p>N&atilde;o estou sugerindo que meu pai tenha sido rude. Muito pelo contr&aacute;rio: era um camarada bastante divertido. Mas quem via aquele paraibano animado, falante, nas feiras-livres ou no centro, n&atilde;o imaginava a maratona que ele enfrentava por detr&aacute;s dos bastidores.</p>
<p>Desde a compra do material at&eacute; o retorno para casa com as f&eacute;rias no bolso, o churrasqueiro tem de matar um le&atilde;o por dia. Comprar a carne, os palitos e o carv&atilde;o. Preparar o molho e a farofa. Socar o alho e temperar tudo na medida certa. Empurrar o carrinho e cuidar da manuten&ccedil;&atilde;o.</p>
<p>Ao transitar apressados pela casa, era bastante comum nos depararmos com uma montanha de carne picada na cozinha. Em cima da mesa, a pilha de carne variava de cor: boi, frango, porco, camar&atilde;o... Com sua paci&ecirc;ncia de J&oacute;, o pai ia intercalando peda&ccedil;os de batata, bacon ou cora&ccedil;&atilde;o, tecendo um colar de bijuterias em cada palito. Os fregueses achavam aquilo &lsquo;j&oacute;ia&rsquo;! N&oacute;s tamb&eacute;m.</p>
<p>Sua especialidade era o galeto. Um frango inteirinho aberto &ndash; espetado em dois palitos &ndash; e mergulhado ainda crocante na farofa. Na feira de domingo, era o almo&ccedil;o garantido dos feirantes. At&eacute; hoje, sinto &aacute;gua na boca s&oacute; em pensar...</p>
<p>Foi nesse universo que percebi ainda crian&ccedil;a, como os ossos do of&iacute;cio podem ser mais duros pra muita gente. O homem que nos fornecia os palitos j&aacute; era idoso &ndash; bem idoso &ndash; al&eacute;m de deficiente visual. Dava um baita exemplo ganhando o sustento com as pr&oacute;prias m&atilde;os.</p>
<p>Sua filha era quem nos trazia as encomendas. Limpinhos, bem afiados, amarrados em feixes de cem. E voltava alegre com o dinheiro tamb&eacute;m limpo daquele trabalho t&atilde;o honesto. Aquela fam&iacute;lia nos ensinou que o verdadeiro cego &eacute; quem prefere n&atilde;o enxergar as possibilidades que a vida tem a oferecer.</p>
<p>At&eacute; hoje fico admirado ao pensar em como aquele homem cortava o bambu, e fazia os palitos, de forma artesanal. Imagino-o a conferir as pontas dos palitos, um a um, imerso em seu mundo de escurid&atilde;o.</p>
<p>Ou seria a filha quem realizava essa etapa? N&atilde;o sei, e acho que nunca saberei. Mas quem elogiava o tempero l&aacute; na feira n&atilde;o podia sequer imaginar que tinha em m&atilde;os uma obra de arte.&nbsp;</p>
<p>Naquela &eacute;poca, al&eacute;m dos amigos &lsquo;televizinhos&rsquo; &ndash; sempre lembrados pelo Daniel Azulay &ndash; havia tamb&eacute;m os &lsquo;gelovizinhos&rsquo;. Era a turma que vivia pedindo gelo na casa dos outros!</p>
<p>Meu pai, sempre inovador, aproveitou pra criar sua vers&atilde;o particular. Encontrava carne na promo&ccedil;&atilde;o, estocava tudo que podia na casa do seu Epaminondas, cujo cora&ccedil;&atilde;o era maior do que o pr&oacute;prio congelador.</p>
<p>Qualquer corte na m&atilde;o ou farpa no dedo ca&iacute;a logo no esquecimento quando meu pai ganhava as ruas e gritava aos quatro ventos que &lsquo;provar seu churrasco era a op&ccedil;&atilde;o mais inteligente do momento&rsquo;.</p>
<p>Al&eacute;m do manjado &lsquo;mo&ccedil;a bonita n&atilde;o paga, mas tamb&eacute;m n&atilde;o leva&rsquo;, seu grito de guerra era:</p>
<p>&ldquo;-- Vamu cum&ecirc;, gente! Vamu cum&ecirc;, que o mundo vai acab&aacute; hoje!&rdquo;</p>
<p>Ao ouvir os elogios dos fregueses, eu notava que um brilho especial aparecia em seu olhar. Era o orgulho pelo reconhecimento de um trabalho bem feito.</p>
<p>Para n&oacute;s, meninos, acompanh&aacute;-lo era um grande barato. No caminho, ao lado do viaduto, havia uma &aacute;rvore centen&aacute;ria, repleta de cip&oacute;s. A inclina&ccedil;&atilde;o do terreno criava um pequeno precip&iacute;cio.</p>
<p>Ali par&aacute;vamos a cada vez. Primeiro ele se balan&ccedil;ava, imitando o Tarzan que assist&iacute;amos em preto e branco. Depois, levantava cada um de n&oacute;s, e nos empurrava rumo ao desconhecido. Aquilo era melhor que a Disney!</p>
<p>&Agrave; beira da churrasqueira, aprendi li&ccedil;&otilde;es que levo por toda a vida. A primeira delas, com meu irm&atilde;o mais velho. Eu havia acabado de entrar na escola, e como ele estava um ano adiantado, j&aacute; dominava valiosas t&eacute;cnicas de negocia&ccedil;&atilde;o.</p>
<p>No come&ccedil;o da jornada, ganh&aacute;vamos dois churrascos de brinde. Eu comia logo o meu, mas ele tinha uma estrat&eacute;gia melhor... Aguardava o pr&oacute;ximo fregu&ecirc;s, e vendia o pr&oacute;prio brinde.</p>
<p>No minuto seguinte, l&aacute; estava o mano em frente &agrave; vitrine da padaria, escolhendo entre o pudim, refrigerante, salgado ou quindim. Antes do fim da noite o pai liberava a churrasqueira. A&iacute; sim, pod&iacute;amos comer &agrave; vontade, e ele sempre se dava bem. Garoto esperto o meu irm&atilde;o!</p>
<p>A segunda aconteceu numa noite de ver&atilde;o. Meu pai havia ido buscar troco &ndash; ou ao banheiro &ndash; n&atilde;o me lembro, mas acabei ficando sozinho na carrocinha. Afinal, eu j&aacute; tinha quase doze anos!</p>
<p>Chegou um maltrapilho e perguntou o pre&ccedil;o do churrasco. Informei que eram tr&ecirc;s cruzeiros. Ele saiu quieto pra tr&aacute;s do carrinho &ndash; era uma grande &aacute;rea, embaixo do viaduto. Come&ccedil;ou a se abaixar e levantar, num gesto pra l&aacute; de estranho...</p>
<p>Em princ&iacute;pio n&atilde;o entendi a cena. (Afinal... Eu tinha menos de doze.) Mas qual n&atilde;o foi minha surpresa ao perceber que ele estava pegando palitos com peda&ccedil;os de carne e os enfiando apressadamente boca adentro.</p>
<p>Fiquei paralisado. Nunca tinha visto algu&eacute;m passando fome. Eu tinha poucos segundos pra decidir. Meu cora&ccedil;&atilde;o gritava para que eu desse uma d&uacute;zia de churrascos ao pobre homem, mas minha mente fingia n&atilde;o ouvir, pensando no que meu pai diria a respeito...</p>
<p>Quando chegou, contei-lhe o ocorrido. Ele ouviu atentamente, e no final comentou: &ldquo;voc&ecirc; devia ter dado alguns pra ele.&rdquo;</p>
<p>Al&eacute;m do galeto, o velho tinha tamb&eacute;m uma arma secreta para atrair a clientela. Era um churrasco &lsquo;desse tamanho&rsquo;, feito de pura gordura! Quando ele sacudia aquele boi em cima do braseiro, fisgava fregueses no final do quarteir&atilde;o. Tinha lojista que largava at&eacute; o balc&atilde;o para conferir aquele cheirinho...</p>
<p>No fim da noite, ele mergulhava a isca na farofa, e lambuzava a cara de farinha, acompanhado de perto por seus meninos e um litro de Fanta laranja.</p>
<p>Mas o tiro acabou saindo pela culatra . De tanto comer gordura, sua press&atilde;o foi subindo, subindo, a ponto de mat&aacute;-lo de derrame. No auge dos seus quarenta e sete anos, deixou minha m&atilde;e vi&uacute;va. E sem bens, como frisava seu atestado de &oacute;bito!</p>
<p>Quase sem acreditar, li as palavras mais frias que um peda&ccedil;o de papel poderia suportar: &lsquo;N&atilde;o deixou bens. Deixou tr&ecirc;s filhos.&rsquo; E a conclus&atilde;o era ainda mais cortante: &lsquo;O referido &eacute; verdade e dou f&eacute;.&rsquo;</p>
<p>Fui o primeiro a receber a not&iacute;cia, naquele tom de punhalada. Que desperd&iacute;cio: escrever um documento inteiro para acusar um crist&atilde;o de ter deixado filhos! Se esse foi seu &uacute;nico erro digno de nota, meu pai j&aacute; deve estar num bom lugar...</p>
<p>O que o atestado n&atilde;o mencionou, foi que ele deixou aquele carrinho amarelo e uma B&iacute;blia. Ap&oacute;s ponderar se dar&iacute;amos continuidade &agrave; profiss&atilde;o, minha m&atilde;e decidiu retornar &agrave; costura. Vendemos o carrinho. Ficamos com a B&iacute;blia.</p>
<p>Foi-se o velho, ficaram as lembran&ccedil;as e os ensinamentos. Nunca mais vi a bonita filha do cego, nem levei co&ccedil;a de palito. Nunca mais assisti Tarzan, nem pendurei no cip&oacute; ao lado do viaduto. E at&eacute; hoje evito gordura.</p>
<p>Ficou o respeito por todo e qualquer trabalho honesto, executado com alegria, a despeito da dureza do dia a dia. Ficou o gosto pelos prazeres simples da vida, e a lembran&ccedil;a de que &eacute; gratificante fazer o melhor quando a vez &eacute; toda sua.</p>
<p>Creio n&atilde;o haver maior tesouro que um menino possa desejar...&nbsp;</p><p>

--- (Edited on 7/13/2015 10:34 pm [GMT-0500]  by  ) ---
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