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Barbeiro - fazendo a cabeça do povo
User: fabito
Date: 7/13/2015 10:03 pm
Views: 1154
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<p>Se existe um profissional que tem um neg&oacute;cio chamado de &lsquo;p&uacute;blico cativo&rsquo;, &eacute; o nosso amigo barbeiro. Atencioso, bom de papo, com um pitaco pronto para a pol&iacute;tica ou futebol, vai conquistando sua clientela...</p>
<p>&nbsp;J&aacute; vi gente trocar de advogado, m&eacute;dico, obstetra, pedreiro. Mas deixar de freq&uuml;entar um bom barbeiro, &eacute; prova de insanidade. Ao menos que ele viaje, se aposente, ou fique doente.</p>
<p>&nbsp;Tem barbeiro que curte tanto a profiss&atilde;o, que v&atilde;o se passando os anos e ele se esquece at&eacute; de falecer! Eu conheci um assim... Ali&aacute;s, foram dois, e um era pai do outro. Conto j&aacute;...</p>
<p>&nbsp;Quando pequenos, meu pai nos levava &ndash; meu irm&atilde;o e eu &ndash; ao seu Cleosbaldo. Nunca entendi porque uma m&atilde;e resolve chamar um filho de &lsquo;Cleosbaldo&rsquo; &ndash; deve ter tido uma gravidez complicada ou um parto dif&iacute;cil pra burro!</p>
<p>Era s&oacute; a gente sentar na cadeira, que ele vinha com a mesma pergunta: vai cortar como... Pr&iacute;ncipe Danilo ? Meu pai explicava mais uma vez que era pra aparar aqui, abaixar ali, etc. Acabei ficando curioso, e perguntei sobre o tal pr&iacute;ncipe...</p>
<p>&nbsp;Ele explicou que o corte era feito colocando uma cuia de coco na cabe&ccedil;a, e passando a m&aacute;quina ao redor. O que sobrasse era o tal penteado. Pensei: coitado desse cara &ndash; deve ter morrido solteiro!</p>
<p>&nbsp;Mas o seu Cleosbaldo tinha uma arma secreta. Era sua terr&iacute;vel M&aacute;quina Zero. Naquela &eacute;poca, n&atilde;o era movida a eletricidade, mas funcionava mecanicamente. Ele come&ccedil;ava a fazer o tlec-tlec na cabe&ccedil;a da gente e &ndash; de repente &ndash; dava aquela beliscada... Ai!</p>
<p>&nbsp;A&iacute; ele vinha sempre com a mesma desculpa: &ldquo;Tenho que mandar amolar essa m&aacute;quina, t&aacute; beliscando um pouquinho...&rdquo; Mas o &lsquo;pouquinho&rsquo; dele, n&atilde;o havia crist&atilde;o que ag&uuml;entasse, e ele acabava voltando com o tlec-tlec da tesoura mesmo!</p>
<p>&nbsp;No final do corte, voltava ele com suas frases batidas: &ldquo;Agora vai arrumar namorada, hein?!&rdquo; Os adultos presentes riam, a gente torcia o bico e pulava da cadeira.</p>
<p>&nbsp;Se fosse por mim, s&oacute; cortava cabelo em duas ocasi&otilde;es: quando tivesse que tirar retrato ou estivesse &lsquo;pingando&rsquo; de piolho!</p>
<p>&nbsp;Quando eu j&aacute; estava mais crescido, seu Cleosbaldo teve que viajar. Indicaram-me a barbearia do pai dele. Se o filho j&aacute; tinha mais de setenta anos, imagina o pai! E l&aacute; fui eu, atr&aacute;s do verdadeiro Tesourassaurus Rex!</p>
<p>&nbsp;O homem foi bastante educado. Me atendeu em casa, e n&atilde;o citou o pr&iacute;ncipe, as namoradas, nem me assustou com a terr&iacute;vel m&aacute;quina zero. Paguei, sa&iacute;, e nunca mais voltei por l&aacute;. (Seu Cleosbaldo tamb&eacute;m n&atilde;o tirou mais f&eacute;rias!) E se o Mr. Rex continuou cortando, tamb&eacute;m n&atilde;o sei. Afinal, ele j&aacute; havia cruzado o Cabo da Boa Esperan&ccedil;a fazia tempo...</p>
<p>&nbsp;Tem tamb&eacute;m a &uacute;nica vez que cortei com um barbeiro que tinha mau h&aacute;lito. Acho que se ele fornecesse uma m&aacute;scara ao cliente, e desse uma boa baforada na cabe&ccedil;a, tingia os cabelos de uma cacetada s&oacute;!</p>
<p>&nbsp;Poderia at&eacute; ficar famoso com sua t&eacute;cnica natural. Se o cliente n&atilde;o pudesse escolher a cor, ao menos escolheria o sabor. Imagine o bafo-de-on&ccedil;a perguntando: E a&iacute;, vamos tingir de cebolinha, mortadela ou salaminho?</p>
<p>&nbsp;Mas nem s&oacute; de aterrorizar meninos vivem as barbearias...</p>
<p>&nbsp;Teve uma vez &ndash; l&aacute; no nordeste &ndash; que passei a cortar com um rapaz que era o rei do improviso. Como o pre&ccedil;o cabia no meu bolso &ndash; ambos eram bastante reduzidos &ndash; virei fregu&ecirc;s.</p>
<p>&nbsp;Pra molhar o cabelo, ele usava um recipiente de desodorante, cheio de &aacute;gua de torneira. A cadeira, ele buscava na cozinha mesmo. O espelho ficava na sala. E o corte era feito na varanda. Uma t&eacute;cnica de marketing perfeita: o cliente na varanda chamava a aten&ccedil;&atilde;o dos clientes que passavam na rua e... Batata!</p>
<p>&nbsp;Certa ocasi&atilde;o, j&aacute; vinha caindo a noitinha quando come&ccedil;amos a aventura. Era mais emocionante do que pular de p&aacute;ra-quedas, pois o final era sempre imprevis&iacute;vel.</p>
<p>&nbsp;De repente, acabou a energia. Com o corte j&aacute; pela metade, colocamos a cadeira na cal&ccedil;ada, pra aproveitar a luz da lua. Como o tempo estava nublado, a minha &uacute;nica alternativa foi segurar duas velas acesas &ndash; uma em cada m&atilde;o &ndash; sob o olhar admirado de quem passava!</p>
<p>&nbsp;Hoje, quando conto, quase ningu&eacute;m acredita. Nem sei se eu mesmo acreditaria, caso n&atilde;o houvesse vivido na pele... Concordo. &Agrave;s vezes, &eacute; bem mais f&aacute;cil acreditar em pr&iacute;ncipe.</p>
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--- (Edited on 7/13/2015 10:24 pm [GMT-0500]  by  ) ---
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